Naquela noite, revisei a fatura de compras do supermercado dos últimos três meses, fiquei completamente desanimado.


Percebi que agora meu limite para "desistir de comprar" está absurdamente alto.
Antes, era para fazer uma boa refeição, ao comprar um peixe, ficava hesitando dez segundos na frente do balcão de frutos do mar, achando caro, dando duas voltas e voltando a olhar a etiqueta de preço.
Agora, com uma pequena lata de azeitonas, sabendo que ela custa o dobro do ano passado, ainda assim a coloco no carrinho, pensando que tudo bem, no próximo mês economizo.
O problema é que no mês passado também pensei assim.
E no mês anterior também.
O mais assustador é que, ao revisar a fatura, percebi que esse "desistir" já se espalhou de comida para tudo.
A conta de luz é debitada automaticamente, nem olho.
O plano do celular expira e aumenta o preço, estou com preguiça de trocar.
Antes, para comprar uma calça, tinha que passar por três lojas, agora só lembro de qual loja é quando abro o pacote.
Não estou gastando dinheiro, estou pagando para recuperar minha última força.
Recuperar uma noite que não preciso mais gastar decidindo se gasto dezessete reais ou não após o trabalho.
No mês passado, vi uma garota no metrô, com a tela do celular toda quebrada, ainda usando.
Ao lado dela, havia uma sacola de compras, com uma pequena lata de azeitonas importadas, exatamente igual à minha.
Será que devo dizer a ela que há uma versão nacional do mesmo sabor por metade do preço?
Não falei.
Tenho medo que ela diga, eu sei.
Tenho mais medo ainda que ela diga, desista.
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