Naquela esquina, durante os horários de pico da manhã e da tarde, há policiais auxiliares de plantão, sempre segurando um maço de multas na mão.


Na manhã em que fui parado, não tive tempo de arrumar o cabelo, e tinha um pedaço de pão na boca.
O policial auxiliar era um jovem rapaz, provavelmente recém-contratado, com o rosto tenso na mesma curva de um cumprimento de saudação, e gritou para mim: “Cadê o capacete?!”
Eu disse que estava quase atrasado, que não era por vontade própria.
Ele não respondeu, levantou o queixo para o lado da rua: “Desça, empurre até lá, me diga seu RG.”
Pensei comigo mesmo: “Perdi tudo, esse mês não tenho mais frequência, e ainda vou pagar cinquenta de multa.”
Ele inspecionou minha velha bicicleta elétrica por dentro e por fora três vezes, e a cesta já tinha o pão frito que comprei de manhã, frio.
Ele abriu o assento, onde estavam o colete refletivo e o capacete que não consegui guardar na noite anterior, após o turno.
Ele ficou um instante parado, me perguntou: “Você trabalha em qual obra?”
Eu disse que não era obra, mas que fazia turno noturno no parque logístico ao lado, separando encomendas.
Ele olhou para o meu capacete de segurança, depois para a minha roupa de trabalho que já estava desbotada, e a multa na mão ainda não foi rasgada.
Ele devolveu meu RG, de repente perguntou: “Esse seu veículo, o freio funciona bem?”
Eu disse que sim.
Ele assentiu e falou: “O freio do lado esquerdo está um pouco torto, quando passar na frente do conserto de carros, peça para alguém arrumar. Não vou te multar por usar o capacete desta vez, mas aquele freio, você precisa consertar hoje.”
Fiquei surpreso.
Ele acrescentou: “Sua vida é mais importante do que o prêmio de assiduidade.”
Depois, fui demitido daquela empresa de entregas, troquei para um turno diurno, e ao passar novamente por aquela esquina, ele já tinha sido transferido.
Fui até o conserto de carros e perguntei ao dono, que disse que o rapaz tinha pedido demissão no começo do ano e voltado para a cidade natal para fazer concurso.
Enquanto apertava uma porca, o dono disse: “Antes de sair, ele veio aqui e deixou cem reais. Disse que, se jovens como você precisarem ajustar o freio, não cobraria nada.”
Com meu novo capacete, troquei o freio esquerdo da bicicleta velha por um novo.
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