Crise da ordem mundial sob a sombra da guerra entre a Alemanha e a França: estamos realmente a dar o passo final rumo ao conflito?

No início de 2026, uma voz unânime raramente ouvida no palco político mundial. Na Conferência de Segurança de Munique, os líderes da Alemanha, França e Estados Unidos quase simultaneamente afirmaram que a ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial está de facto extinta. Este sinal foi impactante não só pela sinceridade dos políticos, mas também porque coincide com o julgamento do setor de investimentos.

O fundador da Bridgewater, Ray Dalio, publicou uma análise de mil palavras, posicionando o mundo atual como um “período de desordem” dentro de um grande ciclo. Simultaneamente, indicadores quantitativos também alertam: o índice de incerteza global (WUI) atingiu um recorde histórico de 106.862,2 no terceiro trimestre de 2025, superando a crise financeira de 2008, a pandemia de 2020 e até o 11 de setembro de 2001.

Políticos, investidores e dados apontam juntos para uma conclusão inquietante: a velha ordem morreu, a nova ainda não nasceu, e o mundo está mergulhado em um vácuo perigoso.

A essência da ordem internacional: força e não regras

Dalio passou anos estudando as leis de ascensão e queda de onze grandes impérios nos últimos quinhentos anos, desenvolvendo uma teoria de “grandes ciclos”. Sua principal percepção, embora simples, é profunda: a força relativa, não as regras, determina a ordem internacional.

Internamente, leis, polícia e tribunais mantêm a ordem. No palco internacional, esses mecanismos não existem. A ONU não consegue controlar países mais poderosos e não pode impor resoluções. Quando há disputas entre grandes potências, a solução não é recorrer ao tribunal, mas a uma luta de forças — seja por negociação e concessões ou por confronto armado.

Sob essa lógica, os conflitos entre países não surgem de repente, mas evoluem por uma trajetória clara de escalada:

Guerra comercial → Guerra tecnológica → Guerra geopolítica → Guerra de capital → Guerra militar

As quatro primeiras fases evoluem progressivamente. Quando se chega à guerra militar, todas as dimensões se armam, e a destruição atinge seu máximo. Dalio aponta que o momento de maior risco de guerra é geralmente quando as forças estão equilibradas e interesses centrais não podem ser reconciliados, atingindo um ponto crítico.

Em sua análise, os conflitos mais propensos a explodir não são ocultos, mas claramente indicados — especialmente o confronto entre EUA e China em torno de Taiwan. Essa avaliação não é alarmismo, mas uma análise racional baseada em leis históricas.

A lógica de 1937 se repete: como a guerra econômica evolui para uma guerra quente

Dalio está especialmente atento ao perigo atual por perceber uma forte semelhança com a década de 1930. Ele usa a evolução completa da Segunda Guerra Mundial como espelho histórico, revelando como a crise econômica pode levar, passo a passo, ao conflito armado:

Colapso econômico → Ruptura social interna → Ascensão de forças políticas extremas → Conflito por recursos externos → Escalada da guerra econômica → Estouro da guerra quente

Após o crash de 1929, a taxa de desemprego na Alemanha atingiu 25%, o Japão enfrentou forte queda nas exportações, falências em massa e colapso do valor da moeda. Nesse desespero econômico, ambos os países recorreram ao populismo e à expansão militar — não por natureza belicosa, mas porque, na crise, a expansão externa parecia mais “rentável”. Quando o sustento interno falha, a pilhagem de recursos e mercados torna-se uma questão de sobrevivência.

O que merece atenção é a lógica de estrangulamento econômico dos EUA ao Japão:

  • 1940: restrição às exportações de aço e ferro, início da escassez de matérias-primas
  • Julho de 1941: congelamento de ativos japoneses nos EUA, proibição de exportação de petróleo, fechamento do Canal do Panamá
  • Resultado: 80% do petróleo do Japão cortado, com reservas internas estimadas para apenas dois anos
  • O Japão se vê numa encruzilhada: render-se incondicionalmente ou atacar para obter recursos

Em dezembro de 1941, ocorre o ataque a Pearl Harbor.

Dalio reforça que essa lição é fundamental: antes de uma guerra quente, há geralmente uma longa fase de buffer de guerra econômica, que pode durar até uma década. Apesar de a Segunda Guerra Mundial ter começado oficialmente em 1939, o conflito já se desenhava desde a crise de 1929. Da desesperança econômica ao conflito armado, há um longo processo de escalada — e, uma vez na fase final, é difícil voltar atrás.

A realidade de 2026: em que ponto de escalada estamos?

Aplicando a estrutura de cinco camadas de conflito de Dalio à atual situação geopolítica, surge um quadro preocupante:

Nível de conflito Estado atual Grau de avanço
Guerra comercial Tensões tarifárias EUA-China desde 2018 ✅ Em plena escalada
Guerra tecnológica Bloqueios de chips, controle de IA, descolamento de computação quântica ✅ Em plena escalada
Guerra geopolítica Tensão no Estreito de Taiwan, escalada no Mar do Sul da China, contradições na BRI e estratégia Indo-Pacífico ✅ Em contínuo agravamento
Guerra de capital Restrições a investimentos na China, controle de fluxos de capital ⚠ Parcialmente em andamento
Guerra militar Ainda não deflagrada, mas aumento de despliegues e exercícios militares ❌ Ainda não ocorreu

Seguindo a linha do tempo da Segunda Guerra Mundial, o mundo atual estaria na fase de 1937 a 1940 — fase intermediária da guerra econômica, ainda longe do ponto mais perigoso, mas a distância está diminuindo.

A variável mais crítica é se a guerra de capital evoluirá para uma “congelamento total”. Se isso acontecer, será como a proibição total de petróleo ao Japão na época, forçando uma escolha final: recuar incondicionalmente ou partir para o confronto armado. Nesse sentido, a lógica da guerra entre França e Alemanha não está obsoleta, mas sim como uma potencial prévia para os conflitos atuais.

Os sinais silenciosos do mercado: três sinais estranhos

Dados quantitativos oferecem provas mais frias do que declarações políticas. O índice de incerteza global (WUI), medido pelo Economist Intelligence Unit, avalia a frequência de menções ao termo “incerteza” em relatórios nacionais. Em 2025, o WUI atingiu 106.862,2 — um recorde histórico, superando os níveis de 11 de setembro, guerras no Iraque, crise de 2008 e pandemia.

Fatores que impulsionaram esse pico incluem: tensões tarifárias globais, conflitos regionais, fraqueza do dólar, interferência política na independência do Fed.

Mas há uma contradição estranha: enquanto a incerteza atinge máximos históricos, os mercados de ações também atingem recordes. Nasdaq ultrapassou 24.000 pontos, S&P 500 rompeu 7.000, mas o dólar caiu para cerca de 95 pontos.

Essa aparente contradição confirma a descrição de Dalio sobre o “final do ciclo”: governos, por meio de impressão de dinheiro e gastos fiscais, elevam os preços nominais dos ativos, enquanto o poder de compra real diminui. Em outras palavras, o mercado sobe em números, o valor do dólar cai.

Os verdadeiros sinais de pânico estão nas commodities: ouro ultrapassou US$ 5.500 por onça, prata superou US$ 100 por onça, ambos recordes históricos. Dalio afirma que “em tempos de guerra, venda-se dívida e compra-se ouro”, e os participantes do mercado já estão apostando nisso com dinheiro de verdade. Grandes capitais estão se preparando para o pior.

Como romper o ciclo do destino: as saídas de Dalio e os obstáculos atuais

Dalio não é um pessimista puro. Ele acredita que o grande ciclo não precisa terminar em desastre, mas as condições são extremamente rigorosas:

  1. Países fortes devem manter a produtividade, controlando gastos e não esgotando o futuro
  2. Distribuir os benefícios do sistema para a maioria, não para uma minoria de elites
  3. Manter relações de ganha-ganha com adversários, evitando o jogo de soma zero

Ele enfatiza um princípio: “Ter poder, respeitar o poder e usá-lo com sabedoria”. A maior inteligência é agir como uma lâmina oculta, sem ostentação. Exibir força demais só provoca uma corrida armamentista, levando à decadência mútua. Generosidade e confiança são forças mais poderosas para construir relações de ganha-ganha, muito superiores à destruição mútua.

Como diz: “Vencer é obter o que é mais importante sem perder o que é mais importante. Guerras que custam mais em vidas e dinheiro do que trazem de benefício são tolas.”

Porém, ele admite que, apesar de guerras “tolas” serem evitáveis racionalmente, elas continuam acontecendo. Isso ocorre por causa do dilema do prisioneiro, da escalada gradual, da dificuldade de concessões e de erros estratégicos. A lacuna entre racionalidade e fraqueza humana muitas vezes decide o desfecho trágico da história.

O epílogo da história: podemos fazer melhor que da última vez?

Desde 1500, a Europa viveu três grandes ciclos de “paz-conflito”, cada um durando cerca de 150 anos. Após cada período de prosperidade, veio uma grande guerra. Hoje, estamos na transição do quarto ciclo.

A guerra entre França e Alemanha não é apenas um evento histórico, mas um exemplo clássico de escalada de conflito internacional. O mundo atual enfrenta uma prova semelhante: ordem antiga se desintegrando, nova ordem por estabelecer, forças em reequilíbrio, interesses em conflito. De Taiwan ao Mar do Sul da China, de comércio a tecnologia, os focos de tensão se espalham.

A história não se repete exatamente, mas costuma rimar. A questão central é: desta vez, a humanidade será mais sábia ou seguirá o mesmo caminho trágico da guerra franco-prussiana?

Quando os políticos relutantes em admitir a crise na conferência de Munique forem forçados a encarar a realidade; quando o capital inteligente migrar para ouro e prata; quando o WUI atingir recordes históricos — já não há muito tempo para hesitar ou esperar.

Ver original
Esta página pode conter conteúdo de terceiros, que é fornecido apenas para fins informativos (não para representações/garantias) e não deve ser considerada como um endosso de suas opiniões pela Gate nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Isenção de responsabilidade para obter detalhes.
  • Recompensa
  • Comentário
  • Repostar
  • Compartilhar
Comentário
0/400
Sem comentários
  • Marcar

Negocie criptomoedas a qualquer hora e em qualquer lugar
qrCode
Escaneie o código para baixar o app da Gate
Comunidade
Português (Brasil)
  • 简体中文
  • English
  • Tiếng Việt
  • 繁體中文
  • Español
  • Русский
  • Français (Afrique)
  • Português (Portugal)
  • Bahasa Indonesia
  • 日本語
  • بالعربية
  • Українська
  • Português (Brasil)