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Como as trocas estão a transformar os mercados com o uso de stablecoins. Perspetivas do PBW
Na Semana Blockchain de Paris, o painel “Construindo Pontes: O Papel da Bolsa e Stablecoins” concentrou-se num tema cada vez mais crucial para a indústria cripto: o papel das stablecoins na evolução das bolsas e no diálogo entre mercados tradicionais e ativos digitais.
Da discussão entre operadores de bolsas, bancos, infraestruturas de mercado e pagamentos, emerge uma linha bastante clara: as stablecoins já não são vistas apenas como um produto cripto, mas como um elemento operacional cada vez mais próximo da infraestrutura financeira. Ao mesmo tempo, no entanto, o painel também destacou todas as limitações remanescentes: fragmentação regulatória, complexidade de integração, experiência do utilizador imperfeita e padrões ainda não maduros.
Stablecoins Deixaram de Ser um Tema Secundário nas Bolsas
A abertura do painel imediatamente preparou o cenário: discutir a ponte entre ativos digitais e finanças tradicionais, segundo os oradores, inevitavelmente significa falar sobre stablecoins.
Da transcrição, emergem três direções principais. A primeira é o seu uso como base operacional para bolsas centralizadas. Giovanni Cunti, CEO Europa da GATE, descreve as stablecoins como um componente essencial para a operação de uma bolsa: sem essa camada, a funcionalidade da plataforma seria significativamente mais limitada.
O segundo aspecto diz respeito ao lado empresarial e corporativo. Ivan Zhiznevsky, fundador e CEO da 3S Money, fornece uma perspetiva concreta do mundo dos pagamentos: segundo o painel, uma parte significativa dos clientes corporativos já conhece o produto stablecoin ou o utiliza ativamente. Os dois casos de uso mais citados são: liquidações com contrapartes em mercados emergentes ou com fortes controles cambiais e pagamentos transfronteiriços, incluindo salários e freelancers.
A terceira direção é mais estratégica: segundo Amy Oldenburg, da Morgan Stanley, e Stephanie Hurry, da Boerse Stuttgart Digital, a discussão está a mudar da simples questão de “qual stablecoin usar” para um plano mais amplo, nomeadamente quais os trilhos de liquidação e padrões a construir para manter o valor de forma eficiente dentro de trilhos digitais.
Stablecoin como Infraestrutura ou como Produto?
Este é um dos pontos mais interessantes que emergiram do painel. A resposta, essencialmente, não foi unânime, mas o consenso geral é que as stablecoins estão a assumir um papel estrutural.
Para as bolsas, o ponto parece já estar resolvido: elas são parte da infraestrutura. Cunti afirma diretamente, explicando que, no contexto de uma bolsa centralizada, as stablecoins tornaram-se uma pedra angular operacional.
No lado corporativo, Zhiznevsky enfatiza que a procura vem dos utilizadores e empresas. Em outras palavras, a stablecoin não é apenas uma tecnologia de back-end: é também uma ferramenta que o utilizador final começa a tratar como “outra moeda” no seu fluxo operacional.
Stephanie Hurry, no entanto, introduz uma distinção importante: as stablecoins, por si só, não esgotam o conceito de infraestrutura. Segundo ela, a infraestrutura também é composta por trilhos, processos, interoperabilidade e padrões. Nesta perspetiva, a stablecoin é uma parte crucial do sistema, mas não equivale ao sistema completo.
Casos de Uso Reais: Pagamentos, Liquidação, Colateral
O painel evitou abstrações e concentrou-se em casos de uso concretos.
O primeiro é o dos pagamentos. Aqui, a 3S Money forneceu o exemplo mais claro, ligando a adoção de stablecoins às necessidades reais de transferência de valor internacional, especialmente onde o dinheiro tradicional encontra fricções.
O segundo é a liquidação. O debate revela que a velocidade e a continuidade operacional das stablecoins são percebidas como uma vantagem chave, especialmente para ambientes que requerem disponibilidade quase contínua.
O terceiro é o colateral. Os oradores destacaram o tema de empréstimos e o uso de stablecoins como base monetária ou colateral em aplicações financeiras mais avançadas. Aqui, no entanto, o tom permanece cauteloso: o interesse é forte, mas a complexidade operacional e regulatória aumenta rapidamente.
Por que a Experiência do Utilizador Ainda é um Problema
Um dos pontos mais perspicazes do painel diz respeito à lacuna entre o potencial da tecnologia e a experiência real do utilizador.
Amy Oldenburg observa que, fora do nicho nativo cripto, a experiência muitas vezes permanece trabalhosa: múltiplas carteiras, stablecoins emitidas em diferentes cadeias, e a necessidade de gerir passos técnicos algo pouco intuitivos. O ponto, portanto, não é apenas a eficiência teórica da liquidação, mas a capacidade de oferecer uma experiência verdadeiramente simples e previsível.
Zhiznevsky traduz este conceito numa fórmula muito clara: nos serviços financeiros, a previsibilidade importa, ou seja, saber o que acontece quando se pressiona um botão. Nesse sentido, o desafio para o setor não é apenas expandir os serviços, mas torná-los compreensíveis e fiáveis para utilizadores e empresas.
As Bolsas Deixaram de Ser Apenas Locais de Negociação
Outra mensagem forte do painel diz respeito à transformação das próprias bolsas. Segundo Giovanni Cunti, há dez anos o papel era muito mais direto: uma plataforma principalmente usada para negociação. Hoje, isso já não é suficiente.
A transcrição revela uma evolução para um modelo mais amplo, quase como um provedor de serviços completo ou operador Web3, capaz de incluir negociação, colateral, liquidação, serviços 24/7 e outras funções integradas.
Esta expansão, no entanto, traz consigo uma questão crucial: o que construir internamente e o que terceirizar?
A resposta dos oradores converge num critério preciso: as funções mais sensíveis em termos de risco, custódia e conformidade tendem a permanecer internas. Tudo o que é menos crítico pode ser confiado a parceiros. No entanto, mesmo ao escolher um parceiro, os painelistas explicam que ainda é necessário estabelecer um nível robusto de controlo.
Regulamentação: Mais Credibilidade, Mas Também Mais Fragmentação
No âmbito regulatório, o painel expressou uma posição muito clara: a regulamentação deu mais credibilidade ao setor, mas ainda não resolveu a questão principal, que é a fragmentação.
Giovanni Cunti destaca que, na Europa, com o MiCA, os operadores encontraram-se a trabalhar dentro de um quadro preciso, mas nem sempre alinhado com o de outras jurisdições. O caso mais citado abertamente é o do USDT, descrito como a stablecoin dominante globalmente, mas não tratada da mesma forma dentro do quadro europeu para operadores regulados.
Ivan Zhiznevsky acrescenta que essa divergência pode ter levado algumas atividades para fora do perímetro europeu. Amy Oldenburg, sob a perspetiva de uma grande organização global, nota que, para quem opera em múltiplos mercados, muitas fricções permanecem entre diferentes níveis regulatórios.
Stephanie Hurry acrescenta uma camada adicional: mesmo dentro da Europa, o diálogo com as autoridades nacionais pode não ser uniforme. Em resumo, o painel não discorda do valor da regulamentação, mas aponta que a falta de harmonização continua a ser um obstáculo tangível.
IA, Agentes e Novos Modelos Operacionais
Na parte final, o painel também aborda o tema da IA, com uma abordagem mais pragmática do que promocional.
Para Giovanni Cunti, a IA surge principalmente como uma facilitadora. Para a 3S Money, no entanto, o seu uso já está muito próximo da conformidade operacional: onboarding, KYC, KYB, triagem e processos de controlo. Zhiznevsky insiste que uma parte significativa dos papéis no banking transacional está ligada ao risco e conformidade, e que a automação pode melhorar a eficiência e a consistência.
A Morgan Stanley mantém uma postura mais cautelosa: o potencial está lá, mas conformidade e gestão de risco são áreas onde não há espaço para erro. Nesta fase, portanto, a adoção de agentes de IA é apresentada mais como um campo a desenvolver com cuidado do que como uma solução totalmente madura.
O Que Este Painel Realmente Deixa Para Trás
A maior perceção da Semana Blockchain de Paris é que o papel das bolsas está a evoluir juntamente com o das stablecoins.
As stablecoins já não são apresentadas apenas como uma ferramenta de negociação ou como um ativo transitório. No painel, assumem a forma de uma camada operacional que abrange pagamentos, liquidação, colateral, tesouraria e distribuição de serviços financeiros digitais.
Simultaneamente, as bolsas deixam de se limitar a serem mercados, passando a ser infraestruturas ou plataformas de serviços cada vez mais complexas. O foco não é apenas expandir a oferta, mas fazê-lo mantendo fiabilidade, controlo e conformidade regulatória.
A mensagem final do painel é clara: a fronteira entre o cripto-nativo e as finanças tradicionais está a estreitar-se, mas a convergência ainda não está completa. O mercado está em movimento, a procura existe, e os casos de uso também. O que ainda falta é uma padronização suficientemente robusta para transformar esta transição numa norma operacional verdadeira.
O que surgiu do painel sobre stablecoins na Semana Blockchain de Paris? O painel revelou que as stablecoins são cada vez mais vistas como uma ferramenta operacional para pagamentos, liquidação e integração entre mercados tradicionais e cripto.
As stablecoins foram definidas como infraestrutura financeira? Sim, vários oradores as descreveram como uma parte central da infraestrutura, especialmente para bolsas e pagamentos. Outra posição que emergiu é que a infraestrutura completa também inclui trilhos, processos e padrões de interoperabilidade.
Que casos de uso de stablecoins foram mencionados no painel? Os casos de uso mais claramente citados são pagamentos transfronteiriços, liquidações com clientes e fornecedores, salários internacionais, liquidação e usos relacionados com colateral.
Como as bolsas estão a mudar segundo os oradores? Segundo o painel, as bolsas deixaram de ser apenas plataformas de negociação. Estão a evoluir para modelos mais amplos, com serviços integrados que incluem liquidação, colateral, suporte operacional contínuo e outras funções.
Qual foi a principal questão regulatória destacada? O painel destacou a fragmentação regulatória entre a Europa, os Estados Unidos e outras jurisdições. Foi também referido que a falta de harmonização pode criar fricções para utilizadores e operadores.